Você já entrou no Shein, no Shopee ou no AliExpress e ficou espantado com o preço? Uma blusa por R$ 25, um short por R$ 18, um conjunto por R$ 40. No mercadinho da esquina ou na loja do centro, o mesmo tipo de roupa custa o dobro, às vezes o triplo.
Na semana passada, o governo federal zerou o imposto que incidia sobre essas compras de até 50 dólares feitas em sites estrangeiros. Antes, o imposto era de 20%. Agora, não tem mais. O produto fica mais barato ainda.
Para quem compra nessas plataformas, a notícia é boa. Ponto. Não tem outro jeito de interpretar.
Mas a economia raramente entrega um presente sem cobrar alguma coisa de alguém. E aqui vale a pena entender de quem ela está cobrando.
Pensa numa costureira em Rio Branco, ou numa pequena confecção em Caruaru, no interior de Pernambuco, que é uma das maiores regiões produtoras de roupa popular do Brasil. Esses lugares produzem camiseta, vestido, short, exatamente o mesmo tipo de produto que vem da China pelo celular. Só que produzir aqui tem um custo que produzir lá não tem. A costureira tem carteira assinada, tem FGTS, tem décimo terceiro. A fábrica paga luz cara, imposto, contador, aluguel. Tudo isso vai para o preço final.
Quando a blusa importada fica ainda mais barata, a luta fica ainda mais desigual.
Não é que o produto brasileiro seja pior. É que ele parte de uma largada diferente. É como uma corrida onde um dos corredores está descalço e o outro de tênis. O descalço pode até ser mais veloz, mas a desvantagem estrutural pesa.
A Confederação Nacional da Indústria fez as contas e disse que, desde que o imposto passou a ser cobrado em 2024, ele ajudou a preservar mais de 135 mil empregos no Brasil. O setor de calçados, sozinho, estima que pode perder quase 54 mil vagas por causa da mudança. São números de entidades que têm interesse no resultado, então merecem algum ceticismo. Mas a lógica é verdadeira: produto importado mais barato, produto nacional mais difícil de vender, fábrica vendendo menos, funcionário mandado embora.
Então a pergunta que fica é: quem ganha e quem perde com isso?
Quem ganha de forma direta é o consumidor. Especialmente aquele que tem renda mais baixa e usa essas plataformas para se vestir com o que o salário deixa. Para essa pessoa, cada real economizado em roupa é um real que sobra para comida, transporte, escola dos filhos.
Quem perde, pelo menos no curto prazo, é quem trabalha na indústria de roupa e calçado no Brasil. Não o grande empresário, mas o operador de máquina, o cortador, a costureira, o motorista de carga que abastece essas fábricas.
E aqui está o paradoxo que a economia vive toda hora: às vezes o que é bom para o bolso de quem compra é ruim para o emprego de quem produz. E as duas pessoas podem morar na mesma rua.
Não existe resposta certa para isso. O que existe é escolha. E toda escolha tem um lado que fica pra trás.
A blusinha ficou mais barata. Vale saber quem pagou a diferença.




