Retórica da direção dialoga com governos. E com o cidadão?
Houve uma época no Acre, mais precisamente no início dos anos 80, em que a “Ave Maria” era dita nos rádios e nos raros aparelhos de televisão. A voz carinhosa de Dom Moacyr entrava sem pedir licença. Ele não precisava. As crianças já sabiam: era hora de “pedir a benção”. Depois, voltava-se para a rua onde se brincava “até a luz se acabar” o que ocorria por volta das 10, 11 horas da noite. Era uma época de uma Eletroacre ainda muito distante da vida da maior parte dos acrianos.
Ao longo dos anos, a empresa passou por maus momentos. Foi destaque nacional em escândalos de corrupção, praticamente faliu e só não foi à bancarrota porque o sistema era mantido pelo Governo Federal. O mesmo que, com o tempo, passou a entender a energia elétrica como um direito do cidadão.
E é justamente nesse aspecto que o cidadão, desconfiado com tantos desmandos, sente-se autorizado a desconfiar da privatização. A retórica da presidência da Energisa, a empresa que arrematou a Eletroacre e a Ceron (em Rondônia), é cheia de diplomacia e cálculo.
A Eletroacre “é a joia do sistema”; a Eletroacre está “em uma região estratégica”; a Eletroacre “foi bem administrada”. São declarações que dialogam tanto com os governos quanto com a direção da empresa que se despede.
É prudente ressaltar que para o cidadão comum, sobretudo o das áreas urbanas, pouco importa se o fornecimento e distribuição de energia elétrica são feitos por empresa estatal ou privada. O que se exige é que o produto seja de qualidade e que os serviços tenham preços corretos. Simples assim.
A crítica ao instrumento da privatização é uma bandeira política que pouco dialoga com o cidadão. É o que a história e os fatos demonstram. Está mais presente na agenda dos sindicatos e alguns partidos políticos.
A Energisa vai precisar de um pouco de paciência para entender a desconfiança do povo acriano. A Eletroacre, ao longo dos anos, foi muito maltratada por gestões que se misturavam com uma agenda política pouco republicana, o que comprometeu a qualidade dos serviços oferecidos. E isso foi corroendo a relação com o consumidor/cidadão. A imagem da empresa é, hoje, desgastada e, praticamente, sem defesa.
É uma resenha já conhecida da direção da Energisa, calejada por 113 anos de atuação no mercado brasileiro, o que lhe confere a sétima posição no segmento no país. Não há relato que surpreenda uma direção com responsabilidade de fornecer energia a 6,5 milhões de clientes (o que, nos cálculos da empresa alcança cerca de 16 milhões de pessoas em 788 municípios em todas as regiões do país).
Essa é a empresa que vai assumir a Eletroacre. Como ninguém investe no Acre impunemente, a direção da Energisa vai rapidamente perceber que, por aqui, os barrancos precisam de cuidado no pisar. O anúncio de investimento de R$ 800 milhões em dois anos já surpreende. No segmento de energia elétrica, essa cifra soa pouca monta. Mas, é preciso dar voto de confiança. É esperar para ver.
Caso se sinta lesado, o cidadão pode recorrer ao Ministério Público do Estado. A promotoria Especializada de Defesa do Consumidor, no Acre, tem sido a única instância de amparo a quem se sente lesado por empresas que desrespeitam o Código do Consumidor.



