A história do Brasil é marcada por inúmeras formas de resistência protagonizadas por pessoas negras que desafiaram o sistema escravista e a ordem colonial. A imagem que abre este texto carrega um forte simbolismo com o tema abordado, uma vez que o termo “crioulos” era utilizado para nomear a população negra em um contexto de subalternização uma nomenclatura que hoje reconhecemos como inadequada. Nesse cenário, a Revolta dos Búzios (Salvador, 1798) destaca-se por expressar um projeto político que defendia não apenas a independência, mas também a liberdade, a igualdade racial e o fim da escravidão.
Resgatar a memória da Revolta dos Búzios é um exercício fundamental para a construção de uma educação antirracista. Ao reconhecer o protagonismo de homens e mulheres negros na luta por justiça social, amplia-se a compreensão de que a população negra não foi apenas vítima da escravidão, mas também agente ativa na defesa da liberdade e da transformação da sociedade. Assim, revisitar esse episódio é também questionar os silêncios da história e reafirmar a importância das lutas negras na formação do Brasil.
A Revolta dos Búzios, também conhecida como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, foi organizada por diferentes segmentos da população de Salvador, especialmente por artesãos, soldados, trabalhadores livres, pessoas negras libertas e escravizadas.
Inspirado pelos ideais iluministas e pelos acontecimentos da Revolução Francesa e da Revolução Haitiana, o movimento defendia a proclamação de uma república, a igualdade entre os cidadãos, a abertura dos portos ao comércio e, sobretudo, a abolição da escravidão. Diferentemente de outras conspirações do período colonial, lideradas majoritariamente por membros da elite, a Revolta dos Búzios possuía uma forte participação popular e tinha como protagonistas aqueles que vivenciavam cotidianamente as desigualdades impostas pelo sistema colonial.
Entre os principais participantes estavam João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, homens negros e mestiços que foram condenados à morte e executados em praça pública em 1799. Suas execuções tinham o objetivo de intimidar a população e impedir que ideias de liberdade e igualdade continuassem a se espalhar. Entretanto, seus nomes permanecem como símbolos da resistência negra e da luta por uma sociedade mais justa.
Sob uma perspectiva antirracista, a Revolta dos Búzios evidencia que a população negra desempenhou papel central na construção da história brasileira. Durante muito tempo, o ensino de História privilegiou narrativas que associavam pessoas negras apenas à condição de escravizadas, invisibilizando suas formas de organização política, suas estratégias de resistência e suas contribuições para a conquista de direitos.
Valorizar movimentos como esse significa romper com essa visão limitada e reconhecer que homens e mulheres negros foram protagonistas de projetos políticos que defendiam liberdade, cidadania e igualdade muito antes da independência do Brasil.
A Revolta dos Búzios permanece atual porque evidencia que a luta por liberdade, igualdade e justiça social faz parte da trajetória histórica da população negra no Brasil. Mais de dois séculos após o movimento, muitos dos ideais defendidos por seus participantes ainda representam desafios para a sociedade brasileira, marcada pelas desigualdades produzidas pelo racismo estrutural.
As disparidades no acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde, à moradia e à justiça demonstram que os efeitos da escravidão e da exclusão histórica continuam presentes, exigindo políticas públicas e ações coletivas comprometidas com a promoção da equidade racial.
Nesse contexto, resgatar essa memória é reconhecer que a construção de uma sociedade democrática passa pelo enfrentamento das desigualdades raciais e pela valorização das trajetórias de resistência negra. Ao dar visibilidade aos sujeitos que protagonizaram essa revolta, rompe-se com narrativas históricas que silenciaram suas contribuições e fortalece-se uma educação antirracista, capaz de promover o respeito à diversidade e a formação de cidadãos comprometidos com os direitos humanos. Assim, lembrar a Revolta dos Búzios não é apenas revisitar o passado, mas reafirmar que a luta contra o racismo é uma responsabilidade permanente e indispensável para a construção de um Brasil mais justo, plural e verdadeiramente igualitário.
Nesse sentido, revisitar a Revolta dos Búzios também é zelar pelo compromisso de uma educação pautada na valorização da história e da cultura afro-brasileira, conforme estabelece a Lei nº 10.639/2003¹. Ao inserir esse episódio nos debates escolares e nos espaços de produção dos conhecimentos históricos científicos, fortalece-se uma memória histórica mais plural, capaz de reconhecer as contribuições da população negra para a formação do país e de combater as narrativas historiográficas que ainda reproduzem o racismo e a exclusão.
Referências
[1] O POVO BRASILEIRO: episódio 5: Brasil crioulo. Direção e roteiro: Isa Grinspum Ferraz. Produção: Superfilmes. São Paulo, 2000.
[2] BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2003. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm.
[3] ISTÓRICO, Instituto Geográfico e. A Revolução dos Alfaiates: Documentos da Conjuração Baiana de 1798. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia, 1998.
[4] TAVARES, Luís Henrique Dias. História da Sedição Intentada na Bahia em 1798 (A Conspiração dos Alfaiates). São Paulo: Pion eira; Brasília: INL, 1975.
[5] TAVARES, Luís Henrique Dias. Da Sedição de 1798 à Revolta dos Búzios. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBa), 2006.

Evellyn Cristina Albuquerque Rates, Discente do curso de Licenciatura em História na Universidade Federal do Acre (UFAC); Membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da universidade federal do acre (NEABI/UFAC).




