Aos 18 anos, Maria Ramona Araújo da Silva trabalhava, estudava e falava em terminar o ensino médio para, depois, cursar Direito. A jovem, encontrada morta dentro do apartamento onde morava, no bairro Conquista, em Rio Branco, é lembrada pela família como uma pessoa alegre, trabalhadora e cheia de planos.
Em entrevista ao site Agazeta.net, uma das irmãs de Maria Ramona, que preferiu não se identificar por segurança, afirmou que a família quer que a jovem não seja lembrada apenas como mais um caso de feminicídio, mas também pela história que estava tentando construir.
“Trabalhadora, alegre, não tinha vícios, estudava, falava em se formar, dar orgulho para os pais. Estava sempre alegre, dançando”, disse a irmã.
Maria Ramona era do interior do Acre e havia se mudado para Rio Branco com parte da família. Segundo a irmã, ela trabalhava em um restaurante, estava terminando o ensino médio e havia completado 18 anos em janeiro.
O que a família mais admirava nela era a alegria.

“Era gente do bem, não tinha contenda com ninguém. Sonhava em fazer Direito, estava terminando o ensino médio”, afirmou.
Relacionamento havia terminado
O principal suspeito da morte é o ex-namorado da jovem, Nestor Daniel Guzman, conhecido como “Argentino”. Ele segue procurado pela Polícia Civil. Segundo a irmã, o relacionamento dos dois durou menos de quatro meses e já havia terminado havia cerca de duas semanas.
“Ela tinha comentado com a minha irmã e pediu para minha irmã não comentar com a gente. Tinha terminado porque ele estava ficando violento. Ela tinha medo de acontecer alguma coisa”, relatou.
A irmã afirma que a família não gostava do suspeito e que não tinha proximidade com ele. Segundo ela, Nestor costumava mandar flores para Maria Ramona no início do relacionamento.
“Ele começou a mandar flores, começou a iludir ela, aquela coisa toda. O nosso relacionamento com ele não durou nem quatro meses. Foi muito pouco tempo mesmo”, contou.
Irmã diz que viu suspeito no apartamento
A irmã de Maria Ramona afirma que viu Nestor no imóvel na manhã de terça-feira, antes de o corpo ser encontrado. Ela contou que não chegou a entrar no apartamento porque sentiu um forte cheiro de cigarro no local.
“Eu vi ele no apartamento na terça-feira, umas 7h da manhã. Eu não entrei porque o cheiro de cigarro estava forte. Se não, eu tinha entrado e provavelmente a outra vítima ia ser eu”, disse.
Segundo ela, o suspeito estava de costas, próximo à pia, e aparentava lavar as mãos. A irmã acredita que a presença dele no local após a morte da jovem reforça a suspeita de que ele tenha permanecido no apartamento.
“Ele ficou no apartamento, dormindo e limpando. Tinha saco de lixo. Foi bem planejado”, afirmou.
A família também relata que, após a morte de Maria Ramona, mensagens teriam sido enviadas do celular dela para parentes e conhecidos. Segundo a irmã, o suspeito teria usado o aparelho da vítima para pedir dinheiro ao chefe dela e tentar atrair uma das irmãs para outro local.

“Na terça-feira de noite, mandou mensagem para minha irmã, chamando ela para ir para um restaurante, mandou a localização e tudo. Ele sabia que minha irmã não gostava dele, nenhuma de nós gostava dele”, relatou.
A família tenta recuperar o acesso ao iCloud do celular da vítima, um iPhone 13, para tentar rastrear o aparelho e colaborar com as investigações.
Corpo foi encontrado em apartamento
Maria Ramona foi encontrada morta na quarta-feira (2), dentro do banheiro do apartamento onde morava, na Rua Vitória, no bairro Conquista. Segundo informações divulgadas pela polícia, o corpo estava em avançado estado de decomposição.
A suspeita é de que a jovem já estivesse morta havia pelo menos dois dias quando foi localizada. Por causa do estado do corpo, não houve velório, e o sepultamento ocorreu logo após a liberação pelo Instituto Médico Legal (IML).
O caso é investigado pela Polícia Civil como feminicídio. No apartamento, peritos encontraram vestígios que devem ajudar na investigação. Entre os materiais recolhidos estavam sacos plásticos com partes de colchão sujas de sangue, segundo informações publicadas sobre o caso.
Suspeito já foi condenado por matar esposa grávida
Nestor Daniel Guzman já havia sido condenado em Roraima por matar a esposa, Betzabeth Miguelina Adam Daza, que estava grávida de seis meses. O crime ocorreu em 2018, em Boa Vista, e ele foi condenado em 2022 a 24 anos de prisão por homicídio qualificado, aborto e ocultação de cadáver.

A informação aumentou a revolta da família de Maria Ramona, que questiona como o suspeito estava em liberdade e pôde se envolver em um novo caso de violência contra mulher.
“Eu estou muito indignada, porque a pessoa pegou 24 anos de cadeia, foi solta, com vários crimes nas costas, para fazer mais vítimas”, desabafou a irmã.
Segundo informações divulgadas pela polícia, Nestor havia deixado o sistema prisional recentemente e usava tornozeleira eletrônica. Após a morte de Maria Ramona, ele passou a ser procurado.
Família cobra justiça
A irmã de Maria Ramona afirma que a família espera que o suspeito seja localizado e preso. Ela também deixou um alerta para mulheres que vivem relacionamentos violentos.

“Não fiquem em silêncio. Denunciem, peçam abrigo”, disse.
Para a família, a morte de Maria Ramona deixou uma dor que vai além da violência do crime. Ficou também a interrupção de uma vida que estava apenas começando.
O caso segue sob investigação da Polícia Civil.
Canais de apoio
Mulheres em situação de violência podem buscar ajuda por meio dos serviços especializados da rede de proteção. Além do apoio de familiares e pessoas de confiança, é importante procurar atendimento jurídico, psicológico e policial para interromper o ciclo de violência.
Os atendimentos podem ser feitos na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), pelo telefone (68) 3221-4799, ou em qualquer delegacia da Polícia Civil.
Também é possível acionar a Central de Atendimento à Mulher, pelo Disque 180, e a Polícia Militar, pelo 190, em situações de emergência.
Outros serviços disponíveis incluem o Centro de Atendimento à Vítima (CAV), pelo telefone (68) 99993-4701; a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), pelo número (68) 99605-0657; e a Casa Rosa Mulher, no telefone (68) 3221-0826.



