A crise no transporte coletivo voltou a ganhar novos capítulos nas últimas semanas. Na semana passada, motoristas realizaram uma paralisação de advertência que durou poucas horas. Segundo a categoria, o movimento foi apenas um aviso à empresa responsável pelo serviço.
Poucos dias depois, a concessionária do transporte coletivo anunciou a suspensão de 31 linhas que operam no Terminal Urbano. A justificativa apresentada foi o aumento no preço do diesel e as más condições das vias utilizadas pelas linhas. A decisão gerou forte repercussão entre passageiros e também pressão do sindicato da categoria, o que levou a empresa a recuar e manter as operações.
Mesmo com a retomada das linhas, os motoristas seguem sem receber os salários. Mais de uma semana após o início da crise, apenas a categoria dos mecânicos teve os pagamentos regularizados.
A Justiça determina que o serviço mínimo seja mantido caso o movimento ocorra. A decisão estabelece que 70% da frota deve circular nos horários de pico, entre 6h e 9h e das 17h às 19h, e pelo menos 50% nos demais horários.
Empresa alega prejuízo milionário
Em entrevista, o proprietário da Ricco Transportes, Everson Dias, afirmou que a empresa enfrenta uma situação financeira crítica e acumula prejuízos milionários com a operação do sistema.
Segundo ele, a arrecadação atual não é suficiente para cobrir os custos da operação.
“Hoje o que a gente arrecada e o que gasta não cobre. Nós temos um déficit aí na faixa de 500 a 600 mil por mês. No último ano tivemos quase R$ 8,9 milhões de prejuízo”, afirmou.
De acordo com o empresário, a empresa já protocolou junto à prefeitura um pedido formal de reequilíbrio financeiro do contrato. O documento, segundo ele, reúne cerca de 45 mil páginas com detalhamento de despesas.
“Eu coloquei desde a nota de um parafuso até o óleo diesel, que é o que a gente mais consome, mostrando exatamente o que recebemos e o que gastamos”, explicou.
Mesmo diante das dificuldades, Everson afirma que decidiu manter a operação da empresa por mais seis meses para evitar que a população fique sem transporte coletivo.
“Se eu tirar dinheiro do bolso, consegue continuar. O problema todo é a população. Como é que fica sem transporte?”, questionou.
Novo modelo pode mudar sistema
A expectativa da empresa está na abertura de uma nova licitação para o transporte coletivo. Segundo Everson Dias, o edital deve adotar o modelo de pagamento por quilômetro rodado, formato já utilizado em outras cidades do país.
“A gente está acreditando nesse edital, que muda tudo. Quando se trata de quilômetro rodado, deve vir outras empresas participar também”, disse.
O empresário também defende que a prefeitura aumente o valor do subsídio para equilibrar as contas do sistema.
“Está complicado, não fecha. A gente sempre recebeu muitas críticas e ficamos calados. Mas agora estamos mostrando a realidade”, afirmou.
Operação tem alto custo
Outro ponto destacado pelo empresário é o modelo de funcionamento do transporte coletivo na cidade. Segundo ele, a quantidade de linhas e a distância entre bairros elevam significativamente os custos da operação.
Hoje, a empresa possui 118 veículos na garagem e opera cerca de 51 linhas. Em muitos casos, cada linha conta com apenas um ônibus para atender bairros mais afastados e ramais.
“Nós temos linhas que transportam 1.800 passageiros no mês. Mesmo assim precisamos manter o ônibus rodando. Em outras cidades você consegue reduzir a frota no fim de semana, aqui não. Não consigo baixar de 74 carros operando”, explicou.
Apesar disso, ele admite que a situação tem sido desgastante.
“É muito complicado. Eu tenho 60 anos, trabalho desde os 7 e não herdei nada. E hoje tenho que tirar dinheiro do bolso para segurar uma empresa. A vontade mesmo é entregar o boné”, concluiu.



