Treinar um modelo avançado de inteligência artificial exige uma quantidade de energia que, em determinados casos, já se aproxima do consumo anual de pequenas cidades. A economia digital, frequentemente apresentada como expressão máxima da desmaterialização contemporânea, revela uma dependência de elementos profundamente enraizados no plano concreto: território, estabilidade energética e recursos minerais.
Essa aparente contradição ajuda a compreender parte da transformação em curso.
A corrida global pela inteligência artificial costuma ser interpretada como uma disputa tecnológica entre empresas capazes de desenvolver sistemas cada vez mais sofisticados. Essa leitura, embora parcialmente correta, tornou-se limitada diante da dimensão do tema. O avanço recente da IA deslocou o centro da competição para a habilidade de sustentar infraestrutura computacional em larga proporção, concentrando poder em grupos capazes de integrar capital, energia e escala industrial.
Os gigantes da tecnologia já operam dentro dessa lógica. OpenAI, Microsoft, Google e Meta ampliaram investimentos bilionários em data centers, sistemas de refrigeração e estruturas capazes de sustentar volumes massivos de processamento. O desafio, longe de ser apenas matemático, incorpora restrições físicas, disponibilidade hídrica e estabilidade regulatória.
Segundo o relatório “Energy and AI”, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE) em 2025, centros de processamento de dados deverão ampliar significativamente seu consumo energético nos próximos anos, impulsionados pela expansão da inteligência artificial. Paralelamente, levantamentos recentes do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam crescimento contínuo da relevância de minerais críticos e semicondutores ligados à infraestrutura tecnológica.
Tal dinâmica evidencia uma contradição: quanto mais “virtual” se torna a economia, maior passa a ser sua dependência de estrutura física pesada.
Durante boa parte do século XX, petróleo e rotas energéticas condicionaram relações de poder, política externa e organização produtiva. No ambiente atual, semicondutores, capacidade computacional e cabos submarinos começam a desempenhar função semelhante.
Outro fator ajuda a dimensionar a profundidade dessa mudança. Diferentemente de ciclos tecnológicos anteriores, parte do aparato ligado à inteligência artificial opera sob um regime de obsolescência acelerado. Equipamentos voltados à execução de modelos de IA perdem rapidamente competitividade diante da velocidade com que novas versões ampliam exigências computacionais.
Diante dessa reconfiguração, o Brasil ocupa posição relevante, reunindo disponibilidade territorial, vastas reservas minerais e uma matriz energética competitiva em comparação com grandes economias industriais.
Essa posição, contudo, não elimina uma limitação histórica: o país exporta minerais e commodities agrícolas enquanto importa tecnologia de ponta e propriedade intelectual. A inteligência artificial, longe de romper esse ciclo, pode apenas reproduzi-lo sob nova roupagem.
A esse movimento se sobrepõe outro fenômeno: a crescente financeirização da IA.
A velocidade com que empresas ligadas ao setor passaram a concentrar capital e valorização de mercado revela um ambiente de expectativas elevadas, no qual evolução tecnológica e euforia financeira coexistem de maneira intensa — e nem sempre coerente.
Enquanto parte do mercado projeta crescimento ilimitado para as big techs, os custos reais seguem aumentando. A Amazônia, que regula o clima do continente e estabiliza a matriz hídrica que alimenta boa parte dessa infraestrutura, não aparece em nenhum balanço das empresas. Está, porém, em cada servidor ligado.
Isso não invalida os avanços observados nos últimos anos. A transformação em andamento possui desdobramentos reais e continuará alterando sistemas decisórios e estruturas econômicas. A principal assimetria reside no tempo: o capital financeiro frequentemente antecipa expectativas futuras em velocidade superior ao ritmo de adaptação do aparato produtivo, o que amplia o risco de descolamento especulativo.
A inteligência artificial se expande nessa interseção. Enquanto data centers se multiplicam em regiões com energia abundante e acessível, o subsolo volta a ditar os limites do que o ciberespaço pode fazer.
A tecnologia que prometia tornar a economia progressivamente menos dependente de elementos físicos acaba produzindo efeito inverso. Resta ao Brasil — e às regiões que sustentam esse equilíbrio invisível — decidir se converterão essa materialidade em densidade econômica ou se continuarão fornecendo o chão para um jogo conduzido por outros.




