Um mês após o ataque a tiros no Instituto São José, em Rio Branco, os relatos dos profissionais que estiveram na linha de frente do atendimento continuam marcados pela emoção e pelas lembranças de um dos episódios mais traumáticos da história recente do Acre.
A tragédia ocorreu na tarde de 5 de maio, quando um adolescente de 13 anos efetuou disparos dentro da escola, matando duas inspetoras e ferindo outras pessoas. Desde então, além das investigações conduzidas pelas autoridades, os profissionais de saúde e segurança seguem convivendo com as imagens e experiências daquele dia.

As primeiras equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegaram ao local poucos minutos após o acionamento. Segundo os socorristas, o cenário encontrado era de desespero, correria e incerteza.
O médico Franco Mariscal lembra que a situação era caótica.

“Estava bem caótico, sem organização nenhuma, o pânico, muita criança, gente adulta, pais, inclusive se misturando com curiosos que também estavam tentando coletar alguma informação.”
A enfermeira Thays Vasconcelos conta que, além do atendimento médico, foi necessário oferecer apoio emocional às pessoas que acompanhavam a ocorrência.
“Tem até mesmo uma hora que chega um familiar e ela chega tão desesperada que o que me tocou e o que meu coração pedia era que abraçasse ela e tentasse acalmá-la, trabalhando sempre do lado humano.”
Ela afirma que o impacto da tragédia permaneceu mesmo após o fim do atendimento.

“Quando eu cheguei em casa, que eu tomei um banho e aquela adrenalina foi baixando, aí eu comecei a chorar. Veio aquela emoção, pensando que tudo aquilo poderia ser na escola da minha filha, na escola do meu sobrinho.”
O médico Manoel Neto também relembra os momentos de tensão enfrentados pelas equipes. Segundo ele, quando os socorristas chegaram ao prédio, ainda existia a informação de que poderia haver outro atirador dentro da escola.
“A polícia ainda estava entrando nas salas e podia ser surpreendida por alguém. A gente subiu escoltado pelos policiais e encontrou as vítimas no corredor.”
O profissional afirma que a constatação dos óbitos foi um dos momentos mais difíceis da carreira.

“Eu fico até um pouco emocionado porque a gente não espera estar naquele cenário. Quando vi que ela não tinha nenhum sinal de vida, aquilo me chocou muito.”
Investigações continuam
Enquanto os relatos dos profissionais ajudam a reconstruir os momentos da tragédia, as investigações seguem em andamento.
De acordo com informações divulgadas pelas forças de segurança, a arma utilizada pelo adolescente era uma pistola calibre .38 com capacidade para 13 disparos por carregador. A perícia recolheu 20 cápsulas deflagradas no local, indicando que o autor conseguiu realizar a troca do carregador e continuar atirando.

O secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, coronel José Américo Gaia, afirmou que uma das linhas investigativas analisa possível influência de conteúdos encontrados na internet e em redes sociais.
“Nós acreditamos que foi um fato isolado. O que motivou ele, nós só vamos saber com o fechamento das investigações.”
Passados 30 dias do ataque, o Instituto São José retomou gradualmente suas atividades, acompanhado por ações de acolhimento psicológico voltadas a alunos, professores e familiares.
Mesmo com o retorno da rotina escolar, o episódio continua presente na memória de quem viveu aquele dia. Para os profissionais que atenderam a ocorrência, as sirenes já silenciaram, mas as lembranças do atendimento e da dor das famílias seguem vivas.
Enquanto a investigação busca respostas definitivas sobre a motivação do crime, a tragédia permanece como uma das mais marcantes já registradas no ambiente escolar acreano.



