Desafio é emplacar perfil da juíza na gestora pública
A desembargadora Maria Cezarinete Angelim passou o bastão da presidência do Tribunal de Justiça do Acre para a colega Denise Bonfim. Ao receber o capelo mais importante da turma do desembargo, Bonfim assume um novo desafio.
Não se trata apenas de assumir um compromisso inédito na carreira. Isso seria empresa pequena. O maior entrave para a nova presidente do TJ é emplacar a imagem de uma juíza “sangue no olho” na rotina da gestão do Judiciário acriano.
A simpatia que Denise Bonfim conquistou ao longo da trajetória como magistrada foi justamente por colocar o direito positivado em um degrau abaixo da percepção humana que o juízo exige: a interpretação do problema para além dos incisos, parágrafos e jurisprudências. É uma conduta que só a experiência e o sofrimento pessoal são capazes de consolidar em um bom juiz.
O paradoxo da nova situação que se apresenta para Bonfim é: o que resta da juíza na gestora pública que nasceu na noite de sexta-feira, 3 de fevereiro? Os problemas gerenciais não cabem nos R$ 232,5 milhões previstos pela peça orçamentária formulada pelo Executivo e aprovada na Aleac em 2016.
A Lei Orçamentária Anual votada no fim do ano passado é dura. Não porque o governador Tião Viana quisesse, mas o corte de aproximadamente R$ 400 milhões foi, na prática, uma imposição do contexto de crise que o país vive há dois anos.
De um lado, Bonfim terá servidores insatisfeitos e cheios de expectativa; as comarcas do interior plenas de limitações e projetos em andamento que não podem recuar. Do outro lado da balança, metas impostas pelo CNJ e o Poder Executivo continuando a manobrar cortes.
É a busca pelo equilíbrio dessa gangorra que a gestora Denise Bonfim passa a assumir desde já. A herança deixada por Angelim não é boa, sobretudo com os servidores. Nas redes sociais, muitos deles (com a discrição que a postura do Judiciário exige) comemoraram o término da última gestão. Mas, é preciso entender também o cenário de crise orçamentária na qual o Judiciário atravessa.
Quando questionada por um repórter da TV Gazeta a respeito das futuras dificuldades da gestão (sobretudo do ponto de vista das finanças da corte de Justiça), a nova presidente do TJ foi lacônica. “[Vou enfrentar a crise] com criatividade”, tergiversou. A rotina vai mostrar que é preciso bem mais que isso.



