Depois de encerrar 2025 com a maior taxa proporcional de feminicídios do país, o Acre terminou os três primeiros meses de 2026 sem registros desse tipo de crime. O cenário, apesar de positivo, ainda é visto com cautela por autoridades e especialistas que acompanham os índices de violência contra mulheres no estado.
Os dados nacionais mostram que o Brasil registrou 399 feminicídios entre janeiro e março deste ano, o maior número já contabilizado para o período desde o início da série histórica. A média foi de uma mulher assassinada a cada 5 horas e 25 minutos.
No Acre, a ausência de casos consumados no começo de 2026 contrasta com o cenário do ano passado. Em 2025, o estado liderou o ranking proporcional de feminicídios no país, com 14 mulheres mortas por razões de gênero. O número representou aumento de 75% em relação a 2024.
Para a delegada Juliana de Angelis, o resultado deste início de ano é reflexo da atuação conjunta da rede de proteção às mulheres.

“Esse ano de 2026 não tivemos nenhum feminicídio no Acre. Isso é reflexo de uma atuação da Polícia Civil, não só da Polícia Civil, mas de diversos órgãos e instituições que atuam na rede de proteção às mulheres”, afirmou.
Violência continua sendo registrada
Apesar do índice zerado no primeiro trimestre, os registros de ameaça, agressão física e violência psicológica seguem presentes nas delegacias e órgãos de atendimento.
A conselheira do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), Tatiana Martins, afirma que olhar apenas para o número de feminicídios pode gerar uma falsa sensação de melhora.

“A leitura de uma estatística isoladamente é muito pobre. É claro que a gente fica feliz com o índice zero de feminicídio, mas ele não pode ser visto dessa forma”, disse.
Segundo ela, os casos de violência doméstica continuam elevados no estado.
“Se a violência doméstica estivesse caminhando junto aos baixos índices de feminicídio, aí sim seria motivo para comemoração. Infelizmente, não é o caso.”
Subnotificação preocupa autoridades
Especialistas também alertam para a dificuldade de mensurar a violência real enfrentada pelas mulheres, já que grande parte dos casos nunca chega oficialmente às autoridades.
Segundo a delegada Juliana de Angelis, o número de ocorrências registradas ainda representa apenas uma parcela do problema.
“O que chega na delegacia é, em média, apenas 20% do que efetivamente ocorre. Existe uma cifra enorme de mulheres que sofrem violência e não procuram registrar ocorrência”, afirmou.
Ela avalia que o aumento dos registros também pode indicar maior confiança das vítimas na rede de proteção.
“A partir do momento que o número de ocorrências aumenta, entendemos que essas mulheres estão se encorajando e buscando denunciar.”
Tentativas de feminicídio também acendem alerta
Para Tatiana Martins, o crescimento expressivo de ocorrências relacionadas à violência doméstica mostra que o cenário ainda está longe de ser considerado seguro.
“Foi quase 30% de aumento. Com esse cenário, fica difícil dizer apenas que é aumento das denúncias. Os números são expressivos demais”, afirmou.
Ela lembra que muitos feminicídios são antecedidos por agressões e episódios de violência anteriores.
“A tentativa de feminicídio não é só um empurrão. São situações graves que mostram como essa violência continua muito presente.”
Ao comentar o cenário, Tatiana também fez um apelo para que homens participem mais ativamente do enfrentamento à violência contra mulheres.
“Eu vou falar diretamente com os homens aqui. A gente precisa de vocês. Muitos homens de bem sabem que esse cenário é inaceitável”, declarou.
Segundo ela, o combate à violência exige mudança cultural e posicionamento coletivo diante de comportamentos agressivos e naturalizados.
“Vamos lutar contra esse tipo de pensamento e contra esse tipo de violência”, afirmou.
Mesmo sem feminicídios registrados neste começo de ano, os dados recentes e o histórico do Acre mantêm o alerta aceso sobre a violência de gênero no estado.
Matéria escrita com informações da repórter Arielly Casas, para a TV Gazeta.
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