A professora Lucilene Ferreira de Almeida, coordenadora do curso de Licenciatura em Geografia da Universidade Federal do Acre (Ufac), tornou pública uma nota de repúdio em que critica a condução e o desfecho de processos administrativos instaurados após denúncias de ameaças, agressões verbais e constrangimentos atribuídos a um docente da instituição.
Os episódios relatados ocorreram em 2025 e envolveram, segundo Lucilene, ela própria, uma estagiária da coordenação e estudantes da turma, incluindo alunos com deficiência. Entre as situações descritas está uma ameaça de estrangulamento que, de acordo com a professora, foi registrada em áudio.
A manifestação foi publicada após a conclusão dos processos. Lucilene afirma que esperava uma resposta mais rigorosa da universidade e diz que a experiência deixou vítimas e estudantes desamparados durante a apuração.
A Ufac, por outro lado, informou ao Agazeta.net que a investigação reconheceu a ocorrência de infração disciplinar e resultou em penalidades ao servidor, incluindo suspensão com desconto salarial.
Professora relata ameaças e medo dentro da universidade
Segundo Lucilene, o episódio inicial ocorreu depois que uma turma foi liberada pela coordenação após aguardar por quase duas horas a chegada de um professor.
A docente afirma que, após a decisão administrativa, ela e a então estagiária Yara Murad passaram a sofrer agressões verbais e ameaças. Em sua nota, Lucilene relata que chegou a ser ameaçada de estrangulamento.
“Não se tratou de uma divergência acadêmica. Não se tratou de uma simples discussão. Não se tratou de um conflito corriqueiro de relações de trabalho. Tratou-se de violência”, escreveu.
A professora afirma ainda que estudantes da mesma turma relataram episódios de humilhação e constrangimento, inclusive alunos com deficiência. O Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI) teria tomado conhecimento da situação, e mães de estudantes chegaram a procurar a coordenação em busca de providências.
Em entrevista ao Agazeta.net, Lucilene disse que alguns estudantes chegaram a cogitar desistir de disciplinas por causa da situação e que houve relatos de ansiedade e medo de voltar a ter aulas com o docente.
“Eu tive, inclusive, solicitações de desistência e eu, num processo muito cuidadoso com esses alunos, com a família de alguns, os convenci. […] Foram alunos que demonstraram muita ansiedade, alunos que não tinham mais nenhuma condição de ter aula com este professor”, afirmou.
Segundo ela, os alunos afetados só voltarão a cursar a disciplina perdida no semestre que começa em 26 de outubro.
“Não tivemos apoio jurídico nem psicológico”
Outro ponto levantado pela professora é a falta de acompanhamento institucional durante a tramitação do processo.
Lucilene afirma que não recebeu suporte jurídico ou psicológico da universidade e que as medidas adotadas para aumentar a segurança na coordenação partiram dos próprios servidores.
“Não tivemos apoio jurídico nem psicológico da instituição. É essa a resposta da instituição durante o processo, em todo esse proceder”, disse.
Ela relata que um colega chegou a comprar um olho mágico para a porta da coordenação e orientou as servidoras a permanecerem com a sala trancada.
Na nota, a professora também conta que, durante sua oitiva, foi ouvida na presença do docente acusado e do advogado dele, além de ter tido o endereço exposto durante o procedimento. Para ela, a forma como a apuração foi conduzida aumentou a sensação de vulnerabilidade.
Lucilene afirma que não esperava necessariamente a demissão do docente, mas considerava que a resposta deveria ir além de uma advertência.
“Eu esperava sinceramente que esse professor ficasse pelo menos um tempo sem receber salário […] uma retratação, no mínimo uma retratação”, afirmou.
Ela também associa a publicação da nota à frustração com políticas institucionais que incentivam vítimas a denunciarem situações de assédio e violência.
“Foi uma nota mesmo de indignação pela resposta que a universidade deu a uma situação séria, grave, com comprovações”, declarou.
Na manifestação pública, Lucilene afirma que a forma como o caso terminou pode desencorajar outras pessoas a denunciarem episódios semelhantes.
“De que serve incentivar mulheres e estudantes a denunciarem, se exporem, se, depois da denúncia, elas continuam carregando o medo, o constrangimento, a exposição e as marcas de tudo aquilo que viveram?”, questiona na nota.
Ufac diz que houve suspensão e desconto salarial
Procurada pela reportagem, a Universidade Federal do Acre apresentou uma versão diferente sobre a punição aplicada.
Segundo a instituição, os fatos foram apurados por meio de Processo Administrativo Disciplinar, conduzido por uma comissão responsável pela investigação, com direito ao contraditório, ampla defesa e manifestação das partes e testemunhas.
“A apuração não ficou sem consequência. Ao final do processo, a comissão reconheceu a ocorrência de infração disciplinar e foram aplicadas as penalidades cabíveis ao servidor, incluindo suspensão, com o correspondente desconto salarial, além das demais medidas administrativas decorrentes do processo”, informou a Ufac.
A universidade acrescentou que a documentação do processo considerou a conduta comprovada e incompatível com os deveres funcionais previstos na Lei nº 8.112/1990.
A Ufac também destacou que a comissão responsável pelo processo possui autonomia para conduzir a apuração e apresentar as conclusões, enquanto cabe à autoridade competente realizar o julgamento e adotar as providências previstas em lei.
A informação apresentada pela universidade diverge do entendimento relatado por Lucilene em sua nota e na entrevista, em que a professora afirma que o resultado recebido por ela teria sido apenas uma advertência.
Veja nota da Ufac na íntegra
A Universidade Federal do Acre (Ufac) informa que os fatos foram devidamente apurados por meio de Processo Administrativo Disciplinar, conduzido por comissão processante constituída para esse fim, com observância do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. Durante a apuração, as partes e testemunhas foram ouvidas e tiveram assegurado o direito de se manifestar e apresentar suas alegações nos autos.
A apuração não ficou sem consequência. Ao final do processo, a comissão reconheceu a ocorrência de infração disciplinar e foram aplicadas as penalidades cabíveis ao servidor, incluindo suspensão, com o correspondente desconto salarial, além das demais medidas administrativas decorrentes do processo. A documentação processual registra, ainda, que a conduta foi considerada comprovada e incompatível com os deveres funcionais previstos na Lei nº 8.112/1990.
A Ufac ressalta que a comissão possui autonomia para realizar a apuração e apresentar suas conclusões, cabendo à autoridade competente proceder ao julgamento e aos encaminhamentos previstos na legislação.
Docente está em processo de aposentadoria
Lucilene informou ainda que o professor envolvido no caso já deu entrada em um processo de aposentadoria.
Para ela, a possibilidade de que ele deixe a universidade traz alívio diante do receio dos estudantes de voltar a ter contato com o docente, mas não muda sua avaliação sobre a forma como o caso foi conduzido.
“É aliviante pensar que, mesmo com toda essa situação, esse professor pode se aposentar e não voltar mais para os nossos quadros. Mas é revoltante você pensar que ele poderia ser penalizado antes desse processo de aposentadoria”, afirmou.
A professora também informou que pretende continuar cobrando providências e maior proteção institucional às pessoas que denunciam situações de violência dentro da universidade.
Na nota publicada na quinta-feira (8), Lucilene afirma que sua manifestação não se resume a uma insatisfação pessoal, mas busca provocar uma discussão sobre como a Ufac acolhe estudantes e servidores que formalizam denúncias.
“Denunciar não pode ser um ato de coragem que deixa a pessoa sozinha e exposta. Queremos proteção, responsabilização e uma Universidade segura”, escreveu.
Veja nota da professora na íntegra




